terça-feira, 13 de agosto de 2013

A INFLUÊNCIA DA FIGURA PATERNA NA APRENDIZAGEM

           
Alguns podem estar se perguntando: de que forma o pai pode influenciar diretamente no processo de aprendizagem de seu filho? Não cabe a escola garantir um ensino de qualidade para que qualquer criança aprenda? Se meu filho não aprende, ele não tem um distúrbio neurológico? Apesar de alguns autores apontarem como principais causas do fracasso escolar estarem relacionados com a desnutrição e as funções neurológicas (Collares e Moysés, 1996; Patto, 1990, e Ragonesi, 1997 apud Fonseca, 2009), a literatura revela uma imensa influência que exercida pelos pais, enquanto função nesse processo, e alguns autores psicanalíticos consideram o fracasso escolar como um modo de defesa do aparelho psíquico, levando a criança a uma inibição intelectual, ou seja, a construção do sintoma do não-aprender.
A aprendizagem pode ser definida como uma articulação entre o conhecimento e o saber, como sendo o processo de integração e de adaptação do ser humano no seu ambiente. O conhecimento constrói-se de forma impessoal enquanto que o saber constrói-se a partir da relação com o outro, de forma pessoal, por meio da experiência vivida. Portanto, o vínculo entre docente e discente é fundamental para que ocorra a aprendizagem. Este ambiente se dá de forma circular, dentro de um espaço onde haja confiança, respeito e estima. (Weil, 2004; Wrege, 2008; apud Silva, 2010).
            A família é primeiro ambiente de socialização da criança e onde ela encontra os seus primeiros docentes, a mãe e o pai. Assim sendo, fica clara a importância de estudarmos as relações familiares quando pensamos em dificuldade de aprendizagem.
Quando consideramos a relação pai e filho na construção da aprendizagem, percebemos que ausência da figura paterna traz consequências importantes na aprendizagem, uma vez que os pais são personagens significativos na vida das crianças. A criança precisa se sentir segura para despertar a curiosidade, porque sem segurança a curiosidade pelo novo pode assustar-se. Também precisa entender que errar faz parte da aprendizagem e que se faz necessário passar por essa experiência, e que crescer não significa que haverá inversão de papéis, porque precisamos desenvolver diferentes habilidades, comportamentos e passar por diferentes fases para sermos adultos (Silva, 2010).
Em famílias nas quais o pai se encontre ausente ou aquelas em que os pais apresentavam pouca interação com seus filhos, percebe-se maior associação com desempenhos pobres em testes cognitivos. (Shin, 1978 apud Andrade e Barros, 2009).
            O pai representa para a criança um principio de realidade e de ordem na família, auxiliando-a a desprender-se da mãe facilitando sua passagem do mundo da família para o da sociedade. Assim, será permitido o acesso à agressividade, a afirmação de si, a capacidade de se defender e de explorar o ambiente. A proximidade do pai permite que a criança sinta-se mais segura em seus estudos, na escolha de uma profissão ou na tomada de iniciativas.
Por outro lado, sua ausência tem potencial para gerar conflitos no desenvolvimento psicológico e cognitivo da criança, bem como influenciar o desenvolvimento de distúrbios de comportamento, alem de interferir na representação mental da aprendizagem podendo contribuir para o rebaixamento do desempenho escolar. (Muza, 1998; Corneau, 1991 e Eizirik e Bergamann, 2004 apud Benczik, 2011; Andrade e Barros, 2009)         
            E a escola, qual sua função? Qual seu papel na aprendizagem? A escola, dito por Ferrari (1999) tem a função de romper o cordão umbilical, sendo o momento em que a criança entra em maior contato com o mundo real. Os fracassos escolares e os problemas de aprendizagem e de relacionamento com os outros tem como base, segundo o autor, em situações familiares.
As dificuldades de aprendizagem podem produzir diferentes sintomas, como desatenção, inabilidade na linguagem e conceitos matemáticos não assimilados. A intensidade do conflito dependerá de vários fatores, entre eles, da disposição do sujeito em valores superegóicos, dos desejos não realizados e da tolerância à frustração que a realidade impõe que, se for insuficiente, dificultará o ato de aprender, sendo que todo aprendizado é necessariamente acompanhado de uma dose de frustração, pois implica em abrir mão de muitos desejos para se debruçar no fazer e refazer necessários a construção de conhecimentos. (Rodrigues, 2010)
Não há duvidas de que os filhos precisam muitos de seus pais, e que a família, por sua vez, precisa estar e se fazer presente, sem delegar a outros suas funções, principalmente no processo de aprendizagem.
Na prática diária, a criança se prepara para a vida. Cada nova situação exigirá um tipo de resolução e a criança buscará soluções a partir de suas experiências, seus modelos e exemplos. Sendo assim, tudo que a criança constrói e produz tem um significado e valor porque, no momento que inventa, cria e descobre, ela aprende.
A modernidade trouxe uma série de mudanças, principalmente na família, mas tais mudanças não isentam a instituição familiar e seu papel educador principal, almejando o desenvolvimento e integração de seu filho à sociedade. A família é primordial para o desenvolvimento do sujeito, independentemente de sua estrutura, porque o indivíduo tem seus primeiros contatos com o mundo externo no meio familiar, incorporando linguagem, valores e hábitos. Aprender através do outro e de suas experiências permitirá a criança internalizar sentimentos, afetos, informações e conhecimento. Assim, esta convivência com os pais, quando saudável, é fundamental para que a criança se insira nos diferentes meios de que fará parte, em particular do  meio escolar.

Raquel Formigoni Dias

Neuropsicóloga

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